Apresentação

Este blog tem como objetivo divulgar e compartilhar meu trabalho na Psicologia, publicar produções e reflexões sobre minha prática, sobre a pessoa e seus relacionamentos. O nome Ser e Crescer engloba muito de como penso e vejo o ser humano e me dirijo às pessoas com quem trabalho. Remete à beleza do ser como e quem se é, ao respeito, à acolhida e à aceitação incondicional do ser, e ao impulso intrínsico para o crescer. Estou profundamente comprometida com cada pessoa que está diante de mim e com seu crescimento, sabendo que este crescer é realmente possível.







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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Dizer "não"!


Um aprendizado importante na vida é poder dizer "não" para as coisas, para as pessoas quando for necessário. Se não aprendemos a dizer "não", ficamos volúveis a todos, aceitando vontades e pedidos dos outros, que tantas vezes são contraditórios. Ficamos como penas ao vento, levadas ora para um lado, ora para outro, sem direção.
  Poder dar respostas como "não concordo", "não gosto", "não quero", "não posso", são indicativos de autoconhecimento, de contato consigo, de segurança interior, de capacidade de se individualizar e poder separar o que é meu e o que pertence ao outro, além de possibilidade de diálogo. Se eu tenho que gostar de tudo o que o outro gosta, não há diálogo, pois minha identidade ficou perdida na do outro, havendo somente uma parte da relação valorizada. Se eu tenho que concordar com tudo o que o outro pensa, fico sem opinião e também anulo uma parte minha. Se eu tenho que fazer tudo o que me solicitam, não respeito meus limites e minhas próprias capacidades e possibilidades.  
   Este aprendizado começa na infância, no modo como nossas vontades, desejos, opiniões, capacidades e necessidades foram consideradas, valorizadas e atendidas. Claro que considerar é diferente de atender. Se a criança tem todas as suas vontades atendidas, certamente repercutirá em problemas presentes e futuros. Esta criança provavelmente será aquele adulto que sente que os outros estão ao seu serviço e precisam sempre atender suas vontades. Porém, há a necessidade legítima da criança de ter considerados e acolhidos seus desejos e opiniões, mesmo que não sejam concretizados. Então, são necessários critérios objetivos para a realização ou não, como: valores, adequações à idade, necessidades das pessoas envolvidas, realidade financeira etc. Por exemplo, a criança não pode ir à escola somente quando quer, ficando em casa sempre que não quiser ir à aula. Mas sua vontade precisa ser considerada em algum momento: por que não quer ir à escola? O que acontece? Há algum problema?
   Dizer “não” pode parecer algo simples, mas não é. E para muitas pessoas é extremamente difícil. Esta dificuldade pode estar relacionada com baixa autoestima, insegurança, crença de que as opiniões dos outros são sempre melhores, medo de perder os outros, culpa por desagradar, medo de perder uma imagem de amigável, distanciamento de si mesmo, convicção de ter de estar sempre disponível para os outros... Portanto, aprender dar respostas “não” implica em poder trabalhar em si estes ou outros aspectos que influenciam nesta dificuldade.
            Refletir antes de dizer, parar antes de sair fazendo, se observar para ver as próprias necessidades, avaliar as reais possibilidades e capacidades, considerar as condições do meio, são atitudes importantes para conseguir responder "não" quando for preciso. Além disso, realizar pequenos exercícios pode ajudar a poder dizer “não” com mais frequência e facilidade, experimentando situações com pessoas que tenha mais facilidade de lidar, com quem tenha menos vínculo afetivo, como com um vizinho ou alguém do mercado. É importante lembrar ainda que todo processo de mudança é lento e trabalhoso, requerendo paciência e persistência. Porém, quanto mais se investe nele, mas resultados se têm. Portanto, não desista! 
         * Texto publicado no Jornal Cidade Leste, edição de maio de 2014.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Compromisso e intimidade


     Poucos dias atrás eu li no livro “A vida, o tempo, a psicoterapia”, de Jean Clark Juliano (da Editora Summus, de São Paulo, ano 2010, p. 32), uma frase de que gostei bastante: “se existem duas palavras temidas e banidas hoje em nossa sociedade são estas: ‘compromisso’ e ‘intimidade’”. Uma realidade, que é vivida em contextos e situações diversas, parece estar cada vez mais presente.
       Nas casas, a televisão mostra ser mais um membro da família. No início deste mês de maio, comentei isso num grupo e, uma das pessoas que ouviu disse: “Não! É mais do que membro da família!”. As pessoas já vivem correndo e, quando estão juntas, ainda estão por intermédio da televisão, que algumas (ou muitas) vezes parece dar o assunto do dia. Também o computador, a internet e os celulares vêm cada vez mais ocupando este lugar de gente. E o que acontece com o compartilhar de experiências vividas, com a troca de afeto, que dão solidez para as famílias, para os relacionamentos, enfim, para a pessoa, e que objeto nenhum pode dar?
       As ideias de imediatismo e do descartável parecem tomar o lugar do compromisso e da intimidade. Tudo tem que ser para agora, ou para ontem, sendo a espera muito difícil de ser tolerada. As tecnologias e máquinas evoluem cada vez mais, tornando-se o estragado descartável. Nessa rotina, os relacionamentos e as pessoas têm ficado descartáveis, alimentando um vazio existencial, que permanece sendo tapado e escondido pelo barulho e tumulto cotidianos...  
       Nesse contexto, pais e educadores têm um papel fundamental. É preciso, sim, manter limites e fazer calar a televisão, ter tempo delimitado para uso de internet, celular, games... Não é a solução, mas são medidas importantes. Faz-se necessário o cultivo de diálogos, de troca de experiências, em que todos possam ser ouvidos, todos tenham a oportunidade de falar, de acolher e ser acolhidos. Momentos em que haja espaço para que os conflitos apareçam, para que possam ser encarados, lidados e resolvidos, e não sejam escondidos e/ou negados.
      Uma rotina de diálogo, de compartilhar experiências no contínuo exercício de esperar e respeitar o momento do outro reflete compromisso, não somente com o outro, mas consigo mesmo. A intimidade e contato com o outro alimentam a intimidade e contato consigo e vice-versa. Quem sabe ainda possamos mudar o rumo de uma sociedade que parece ficar cada vez mais doente, com as pessoas mais frias, distantes, intolerantes, descomprometidas com a vida do outro e com a própria!
       * Texto publicado no Jornal Cidade Leste, edição de maio de 2013.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O que você vê?


Das muitas possibilidades de reflexão que podemos fazer ao olhar esta imagem, quero levantar a da questão das diferentes percepções e sua relação com a comunicação.
Olhe bem para a figura. O que você vê? Olhe novamente. O que vê agora? Talvez, como eu, inicialmente você veja um rosto. Mas pode ser que tenhas visto um menino, sentando em uma pedra, pintando uma tela, inspirando-se em uma casa. Com mais atenção aos detalhes, pode-se ver duas árvores, alguns pássaros, nuvens, grama, montanhas, algumas poucas flores.
Não necessariamente o que eu vejo é o mesmo que você vê. Podemos transpor esta observação para os relacionamentos e as comunicações interpessoais. É muito comum desentendimentos e outros problemas acontecerem por estabelecer um diálogo pressupondo o que o outro está pensando ou experimentando. Ou ainda formar pensamentos sobre o outro e sobre si com base no que se imagina que ele está pensando. Só que muitas vezes o que eu acho que o outro vê e/ou pensa, ele não vê e/ou não pensa.
Assim, é importante, para a saúde dos relacionamentos, a consciência de que o que eu percebo do outro não necessariamente corresponde a o que o outro está sentindo e experimentando na relação comigo. Em consequência, partilhar com o outro meus sentimentos e minha percepção e procurar ouvir sua experiência com relação a isso ajuda para uma comunicação clara e efetiva, sem distorções. Para tanto, cabe discernir o momento propício (em que o outro possa realmente ouvir o que tenho a dizer), e o uso das palavras adequadas.
Por exemplo, o ideal não é que eu diga: “tu não me acolhe bem”, ou “tu não se importa comigo”, pois eu estou colocando o meu sentimento no outro e julgando como o outro está sentindo ou pensando, mas eu não o conheço plenamente. O outro sempre será um mistério para mim. Ademais, esta forma pode já colocar o outro na defensiva e não considerar o que eu disse, mais porque se sentiu acusado do que porque não concorda comigo. Então, o ideal é que eu fale: “eu não me sinto acolhida por ti”, ou “eu sinto que tu não te importas comigo”. É bastante diferente. Aí eu estou realmente partilhando minha experiência e dando ao outro a chance de expor a sua. Melhor ainda é acrescentar a situação. Por exemplo, eu sinto que tu não te importas comigo quando eu falo contigo e tu fazes outra coisa ao mesmo tempo. Quanto mais clara for a comunicação, melhor. Pode-se também adicionar uma pergunta, que deixe mais claro que espero uma confirmação. Algo como: é isso que está acontecendo? Como é essa situação para ti?
Para citar outro exemplo, a afirmação “tu não estás considerando minha opinião e estás invadindo meu espaço”, poderia ser substituída por: “eu sinto que tu não considera minha opinião quando ages desta forma e que não posso dizer o que eu penso, valendo só o que tu pensas; quero te ouvir; como acontece contigo?”. Pode ser que o outro tenha realmente dificuldade de considerar a opinião alheia, e isso não necessariamente seja um problema comigo, mas pessoal dele. Assim, a comunicação clara e sincera favorece o nosso bem-estar e o bem-estar dos nossos relacionamentos com os outros.
Obs.: Imagem retirada do site http://arts.in.ua/artists/MrOlik/w/214752/.

* Texto publicado no Jornal Cidade Leste, edição de janeiro de 2013.
 


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A importância do elogio

            Elogiar é uma atitude de reconhecer o que o outro faz de bom, ou algo bom em si mesmo. É uma ação simples, que todos somos capazes de realizar. O elogio gera vários benefícios: fortalece as qualidades da pessoa, as habilidades, provoca alegria, estreita vínculos, promove auto-confiança e segurança, ajuda a aliviar o peso das dificuldades, fortalece o senso de eu, a identidade etc. Porém, com facilidade esquecemos desse ótimo recurso no nosso dia-a-dia, e podemos acabar por ver somente os aspectos difíceis do(s) outro(s) ou de si próprio, enxergando o mau-humor, a agressividade, a acomodação, o ativismo, o baixo rendimento escolar, a bagunça, a hostilidade, o desleixo...
            O elogio é fundamental em todos os ambientes: na família, no trabalho, nas amizades, nos estudos... O clima, o rendimento no trabalho, por exemplo, é muito melhor quando os funcionários são elogiados pelo bom desempenho, pelas boas ações realizadas.
            Alguns cuidados são importantes ao elogiar o outro. Procure ser específico. Assim, por exemplo, se sua filha lhe mostra um desenho que fez, ao invés de dizer “que desenho lindo”, tente dizer o que no desenho está lindo (como, “que bonita sua casa, você a fez muito bem”).  Evite também expressões gerais como “você é uma ótima desenhista”, que podem gerar angústia e preocupação quando ela não gostar de um desenho seu, para tentar atingir a visão que o pai/mãe tem dela. É importante ser direto e claro no elogio. Outro ponto a ser cuidado é a congruência. Se você não achou a casa do desenho linda, é melhor não dizer que está linda, optando, então, por outro comentário (se for conveniente), podendo ser algo como “que colorida sua casa”. Ser verdadeiro propicia o contato consigo e com os outros, facilitando relações mais autênticas.
            Elogiar é diferente de confirmar. A confirmação remete ao ser, enquanto que o elogiar remete mais ao fazer (ainda que tenha relação e repercussão no ser). Dizer “você é muito importante” não é um elogio. Ninguém precisa fazer nada para ser importante. A pessoa é importante simplesmente por ser pessoa. É um valor, uma importância intrínseca, que independe do que faça ou venha a fazer. Ao dizer e reconhecer que o outro é importante, e é para mim, estou lhe confirmando na sua existência, no seu ser.
A confirmação ainda está relacionada com a acolhida incondicional do outro e ao respeito pelo que experimenta. A pessoa vai se sentir e saber importante pela forma como vai ser tratada nas diferentes relações na vida. Muito dificilmente alguém se descobre importante sozinho.  Assim, por exemplo, se a criança diz para a mãe que está com medo do escuro, a atitude da mãe que irá confirmar a filha e sua experiência é a acolhida, um abraço, com falas como “entendo seu medo; quer que eu faça algo?; às vezes sentimos medo”. Ao contrário, a mãe dizer “que bobagem, filha, não tem porque ter medo de escuro, não tem nada, olha”, não acolhe o sentimento da criança (ainda que a mãe esteja realmente querendo ajudar e achando que está fazendo o melhor), distancia dela mesma, impede soluções criativas a partir do contato da criança consigo e com mãe...
A confirmação reconhece o sentimento do outro, valoriza-o independente(mente) das atitudes.  O menino não é importante e especial quando faz o tema bem feito, mas sempre.  E é importante que esse aspecto lhe seja comunicado nas mais diferentes situações cotidianas. O elogio fortalece o que fez de bom, a atitude, como o fazer o tema sem distração, por exemplo. Todos precisamos nos sabermos e sentirmos importantes, e também precisamos poder ver que somos capazes de muitas coisas boas, de bons desempenhos, e poder reconhecer isso nos outros.
      Talvez seja interessante refletir um pouco sobre quem foi a última pessoa que você elogiou. Como tem sido seus elogios? Como vão os elogios para você mesmo?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sociedade “tô tem aí”

            Quem já não ouviu a expressão “tô nem aí”? De diversas formas, em muitos ambientes essa fala está presente, dita de forma verbal, não verbal, ou através somente de comportamentos. Vivemos uma realidade cultural demasiado marcada pelo egoísmo, individualismo, falta de limites, pelo não enxergar o outro como outro. Percebemos isso em qualquer condição econômica, idade e espaço (escolar, profissional, trânsito...).
           Quando eu só enxergo a mim mesmo diante de mim (só vejo minhas necessidades, meus desejos, minhas coisas) é muito fácil exclamar um “tô nem aí” ao me deparar com o colega que está doente, a esposa que está irritada simplesmente porque está “nos seus dias”, o marido que está chateado porque se desentendeu no trabalho, o vizinho que precisa da minha ajuda, o lixo que está na rua, a louça que se acumula na pia, o problema de esgoto no quarteirão, com o filho que quer brincar e precisa que eu abra mão do meu descanso, o garçom que me deu troco a mais sem querer, com o irmão que tem dificuldades em aprender matemática, o professor que não agrada...
           Entretanto, esse “tô nem aí” é uma expressão em si mesmo ilusória. De uma forma ou de outra, querendo ou não, cada um colabora na construção dos seus relacionamentos, da sociedade. As situações ao meu redor me dizem respeito, sim, simplesmente porque eu faço parte dessa realidade.  Eu posso ajudar a construí-la (ou até re-construí-la) de forma positiva ou negativa, mas é impossível não fazê-lo. E há sempre possibilidade de escolha do como realizar esta construção.
           Ao contrário do que parece, o estar nem aí não só prejudica os outros, mas a si mesmo. Uma perspectiva de vida em que eu me incluo como responsável por mim, pelos relacionamentos e pela sociedade, abre portas para menos estresse, menos reclamações, mais resoluções, mais contato, mais proximidade com os outros, enfim, mais saúde. Abre portas para maior entendimento de quem eu sou e quem posso ser. Uma vida melhor, uma família melhor, um ambiente de trabalho melhor, uma sociedade melhor, começa por mim, por minhas escolhas. Como estão as suas?

           Texto publicado no jornal Cidade Leste, na edição de julho de 2011. http://www.jornalcidadeleste.com.br/

domingo, 26 de junho de 2011

A riqueza das diferenças

       Em nossos relacionamentos temos sempre diante de nós o desafio e a riqueza da diferença. Como nos atrapalhamos por esquecer que o outro é outro, não é igual a mim, não pensa como eu, não sente como eu, não age como eu, não vê o mundo como eu!
       Uns gostam de estar bem arrumados, outros nem ligam para as vestes. Uns se esmeram em ser pontuais, outros se atrapalham e raramente conseguem chegar no horário em algum compromisso. Uns são organizados e se irritam com a bagunça, outros não se importam como ficam suas coisas. Uns têm uma visão geral das coisas, outros prestam mais atenção aos detalhes. Uns precisam ser muitas vezes lembrados que são amados, e carecem de demonstrações de carinho, já para outros um abraço eventual é o suficiente. Enfim, sempre nos deparamos com o outro, que me mostra outros lados, outros jeitos, outras possibilidades.
       Parece que no dia-a-dia facilmente esquecemos desta realidade – se é que já nos demos conta que dela. Facilmente pensamos e dizemos: “Mas como tu não pensou nisso? É tão óbvio?”, e desconsideramos o raciocínio do outro e a sua visão da mesma coisa. Diferenças que, se não aceitas, geram discussões, rancores, brigas, desentendimentos, nas quais um precisa estar com a razão e outro necessita admitir o erro. Na verdade, o crescimento está em observar o que cada lado tem de bom e de proveitoso, lembrando que mesmo as coisas ruins ou supostos defeitos (que não é a melhor palavra, pois defeito quem tem é máquina!) nos trazem boas lições e experiências.
        Também a diferença nos remete à maravilhosa realidade de que cada um é único. Não há ninguém como eu e ninguém como tu. Eu contribuo com a realidade da minha forma única, tu do teu jeito único. Assim, a diferença pode levar à acolhida, ao respeito, à troca, ao crescimento e enriquecimento. Ajustes, remanejos, mudanças são necessários, mas dificilmente bem sucedidos sem o reconhecimento e a aceitação da simples diferença.
 
         Texto publicado no jornal Cidade Leste, em maio de 2011. http://www.jornalcidadeleste.com.br/