Apresentação

Este blog tem como objetivo divulgar e compartilhar meu trabalho na Psicologia, publicar produções e reflexões sobre minha prática, sobre a pessoa e seus relacionamentos. O nome Ser e Crescer engloba muito de como penso e vejo o ser humano e me dirijo às pessoas com quem trabalho. Remete à beleza do ser como e quem se é, ao respeito, à acolhida e à aceitação incondicional do ser, e ao impulso intrínsico para o crescer. Estou profundamente comprometida com cada pessoa que está diante de mim e com seu crescimento, sabendo que este crescer é realmente possível.







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terça-feira, 1 de abril de 2014

Um pouco sobre a ansiedade

A ansiedade é um sentimento acompanhado de fortes sensações físicas, como suor, respiração curta, batimento cardíaco acelerado, entre outros. Também pode se manifestar em reações como roer as unhas, comer demasiadamente ou comer muito pouco, insônia, entre outras. Há diferentes entendimentos teóricos sobre este sentimento. Aqui, trarei um pouco do ponto de vista da Gestalt-terapia.
Experimentamos ansiedade quando estamos num tempo que não é exatamente o agora, seja atravessados pelo passado, seja voltados para o futuro. 
Há a ansiedade relacionada com situações inacabadas, não resolvidas ou elaboradas, assim como a sentimentos não expressos e/ou não acolhidos. Está associada a uma vivência passada, mas não é mais passado, pois a vivencio no agora. Os fatos que aconteceram não existem mais e não podem ser mais acessados, mas as emoções, pensamentos e sentidos que ficaram deste fato o podem. Por exemplo, experimentar ansiedade relacionada à morte da mãe e aos fortes sentimentos envolvidos nesta perda. Não há como mudar o fato da mãe ter morrido. Mas há como trabalhar com os sentimentos envolvidos nesta difícil perda e, provavelmente, aparecerá ansiedade indicando esta necessidade.
Neste sentido, a ansiedade é como um sinal do nosso próprio ser a nos indicar que há algo em nós que precisa de atenção e que "pede" resolução. A base disso é que somos naturalmente seres de crescimento. De forma integral, tendemos para crescer, tendemos para a auto-regulação e integração de partes dissociadas, que, se re-olhadas, tratadas e integradas, seremos mais saudáveis, mais inteiros como pessoas e, consequentemente, mais felizes.
Há ainda a ansiedade que aparece como tensão ao se deparar com o vazio entre o agora e o depois. Não temos como saber realmente o que acontecerá depois, como serão as situações, o que vivenciaremos. Não temos e não sabemos o que virá. Temos somente o agora. Sendo difícil lidar com este vazio, com este desconhecido, o momento presente fica perdido por planejamentos, preocupações, fantasias do que poderá acontecer, numa tentativa de aliviar a tensão e tornar o futuro seguro. Por mais eficaz que seja um planejamento, a concretização nunca será exatamente igual ao pensando. Estar voltado ao futuro, perdendo o momento presente, impede a abertura ao novo do futuro, a espontaneidade e o crescimento com o inesperado. A pessoa deixa de arriscar, não contata com seu próprio potencial e com as oportunidades concretas do meio, se enrijece em comportamentos repetitivos, buscando evitar o novo que, no final das contas, é inevitável.
   Para lidar com a ansiedade, alguns aspectos são importantes, como: reconhecer/ identificar o que sinto; buscar acolher meu sentimento; perceber o que acontece comigo; notar como acontece; tentar identificar do que preciso; ver o que necessito para atender minha necessidade. Se não está claro este processo, então, o que precisa para clarear? Uma forma de clarear pode ser buscar ajuda de alguém de confiança, um amigo, um familiar e/ou um profissional.
       Cabe mencionar que há níveis de ansiedade diferentes, mais ou menos intensos, maios ou menos impactantes, sendo que alguns podem ser tão intensos que a pessoa não consegue administrar e tem prejuízo nas suas atividades diárias (no trabalho, no estudo, nas conversas, na concentração, ou problemas físicos, como constante falta de ar e aceleração dos batimentos cardíacos). Nesses casos, é ainda mais importante procurar ajuda de um psicólogo e psiquiatra e, com o trabalho terapêutico, poder lidar melhor com a ansiedade e com as situações, fortalecer a si mesmo e ampliar o autoconhecimento.
      
       * Texto parcialmente publicado no Jornal Cidade Leste, edição de março de 2014.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O doído sentimento de vazio

       A imagem evidencia o sentimento ou sensação de vazio interior, bastante comum em nossos dias. O sentimento de vazio é acompanhado por angústia, ansiedade, podendo haver outros sentimentos, como tristeza profunda, raiva, desconforto.
      Do ponto de vista psicológico, este vazio não é principalmente um vazio de alguma situação do contexto atual, mas é como um sinal interior de necessidades que não foram atendidas no passado, e que ainda precisam ser resolvidas.
         Há muitos adultos que, por mais que sejam amados no momento, não se sentem preenchidos, ou merecedores de amor, e continuam se sentindo vazios. Ao mesmo tempo em que é experimentado o desejo profundo de estar com as pessoas, o estar com os outros não preenche, e o vazio continua. Um vazio que aponta uma falta, de muitos momentos em que precisavam receber amor, mas não o tiveram. Em geral, situações de opressão física e/ou psicológica, abuso sexual, violências diversas, negligências, estão relacionadas ao sentimento de vazio.
      Enquanto o sentimento de vazio não é encarado, trabalhado, permanece incomodando, podendo se manifestar de muitas formas: ciúmes excessivos, uso de drogas, insatisfação constante, trocas repetidas de relacionamentos afetivos, baixa auto-estima, mentiras ... Há ainda a dificuldade ou intolerância ao silêncio, o fazer muitas coisas, busca incessante de consumo de coisas, mesmo sem necessidade...
           Alice Müller, no seu livro “O drama da criança bem dotada”[1], desenvolve muito bem como os sentimentos infantis que não foram atendidos permanecem presentes na vida adulta, como que pedindo acolhimento e resolução. Trago aqui um trecho do seu livro:
          “Não podemos mudar em nada nosso passado, não podemos desfazer os males que nos foram imputados na infância. Mas podemos nos mudar, ‘consertar’, reconquistar nossa integridade perdida. Isso é possível à medida que decidimos observar mais de perto o conhecimento sobre o passado arquivado em nosso corpo, e colocá-lo mais perto de nossa consciência. Certamente, é um caminho desconfortável, mas é o único que nos oferece a possibilidade de, finalmente, deixar a invisível (e ao mesmo tempo cruel) prisão da infância, nos transformando de vítimas inconscientes do passado em pessoas responsáveis, que são cientes de sua história e, com isso, capazes de conviver com ela” (p. 15).
          Não há dúvida de que se permitir sentir a dor do vazio é difícil, bem difícil. Porém, “fazer de conta” que ele não está presente não fará com que ele saia, mas, ao contrário, o manterá por mais tempo, com maiores consequências. No caso de ter sofrido agressões físicas, por exemplo, aumentará a chance de repetir com os outros as próprias situações vividas – o que acontece especialmente na relação com os filhos.
         Ademais, sempre é tempo de olhar para si, de buscar refazer o sentido da sua história, e construir novas possibilidades de relação consigo e com os outros. Belas formas podem surgir mesmo nas mais duras realidades, assim como podem brotar plantas nos desertos mais áridos.



[1] MÜLLER, Alice. O drama da criança bem dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. São Paulo: Summus, 1997.

         * Texto publicado no Jornal Cidade Leste, edição de outubro de 2013.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Um pouco sobre o medo


          O medo é sentimento de inquietação diante da noção de um perigo real ou imaginário, ou de uma ameaça a nosso bem-estar. A pessoa pode experimentar susto, pavor, temor, terror. Por outro lado, é um sentimento protetivo, pois objetiva nos alertar para que nos defendamos de algo. Ao ignorar o medo, a pessoa pode estar em perigo iminente.  O medo ainda consiste numa reação de sobrevivência, pela qual a pessoa que sente medo interrompe o que está fazendo, buscando prestar atenção na direção do estímulo causador do medo, a fim de avaliar rapidamente o perigo.
Há diferentes motivos para o medo, podendo ser: o medo do novo; medo de não ser amado, acolhido, amparado; medo do fracasso, da vergonha; medo da perda de alguém ou de algo, além da perda da estima e do controle.
Comumente a ansiedade acompanha o sentimento de medo. A intensidade destes sentimentos está relacionada com alguns fatores, como: a severidade e a proximidade da perda que nos ameaça, a relevância da perda para nós, as nossas forças e capacidade defensiva – estrutura psíquica e espiritual, além de física –, ao apoio e suporte emocional nos diferentes relacionamentos e ainda o momento pelo qual se está passando. Ademais, uma determinada pessoa sente medo e ansiedade de forma e intensidade diferente do que outra numa mesma situação. 
A forma como lidamos com o medo está relacionada a como nossos pais ou responsáveis conduziam as situações nas quais demonstrávamos medo, além de como eles próprios lidavam com seus medos. Lembremos-nos dos medos de escuro, medos de animais, de fantasias (como bicho papão) e o que diziam para nós sobre isso. Diante de seus medos, a criança sempre precisa, em primeiro lugar, ser amparada e acolhida. Quanto mais ela tiver sido amparada e legitimada nos seus sentimentos, mais facilmente desenvolverá uma auto-segurança e a coragem para enfrentar seus medos.
           É comum as pessoas ignorarem ou negarem seus medos, o que pode estar relacionado a tentar manter uma imagem de “ser forte” ou à fuga dos próprios sentimentos. Daí decorre que a pessoa não se dá a oportunidade de crescer com as situações que aparecem e não desenvolve um autoconhecimento sólido e uma boa aproximação de si, acabando por viver como com máscaras, num eu que não corresponde ao que é realmente.
Para um amadurecimento humano, é importante estarmos atentos para perceber do que sentimos medo, o que receamos perder, bem como de que forma costumamos reagir diante dele. Procurar conhecer o que nossos medos dizem para nós em cada situação e o que revelam de nosso jeito de funcionar e de ser. É importante tentar descobrir de que perigo exatamente estamos sendo ameaçados.
          Lidar bem com nossos medos requer momentos em que nos colocamos em contato conosco mesmos, em que seja oportunizado ouvir nossos pensamentos, prestar atenção a nossos sentimentos. Não é possível fazer isso vendo televisão, por exemplo, ou tendo atividades para onde dirigir a atenção. É necessário certo sossego para voltar-se para si, para poder se deparar com seus medos e fazer deles um bem para si e para os outros.

                   

 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Quando a vergonha toma conta


Na postagem anterior trabalhamos a vergonha saudável. Há também a que não é saudável, que é experimentada como uma sensação difusa de que se é defeituoso como ser humano. Ela não mais sinaliza nossos limites, mas cofere uma sensação de inutilidade, de fracasso como pessoa, de inferioridade.

Sente-se vergonha de ser quem é. É como se a pessoa vivesse pedindo desculpas por ser quem é.  A pessoa não consegue dizer para si mesma “aconteceu isso, mas tudo bem, foi como pude fazer, não diminui meu valor próprio....”. Ao contrário, fica se atormentando pelo que fez, e não consegue se amparar. Sente-se esmagada pela vergonha.

Esta vergonha é acompanhada pelo sentimento de solidão, pela sensação de ausência e de vazio.  É manifestada de formas diferentes pelas pessoas. Algumas delas são:

- Voltar-se contra o outro. A vergonha não aceita (por si e pelo outro) pode gerar ansiedade, raiva e revolta. Essa raiva pode ser manifestada em deboche, sarcasmo, críticas, agressão moral e física. É um “que tá olhando?”, “vai encarar?”. E daí pode vir mais confusão... Com o tempo, pode nem mais se ter acesso à vergonha, e se habituar a reações agressivas e hostis, sendo estas muito frequentes...

- Ser “bonzinho”:  a  pessoa se esconde através da defesa de ser alguém agradável e de apreço. Assim, o objetivo é sua própria imagem e não o outro. Não é o fazer o bem pelo bem simplesmente. Dessa forma, a pessoa evita o contato, e se assegura de que ninguém a verá como é, com uma base de vergonha, imperfeita e defeituosa.

- Timidez crônica, em que a inibição se manifesta em todas as formas de convívio social, sendo um padrão de funcionamento. Este tema já foi trabalho em outro texto que está publicado no blog.

- Silêncio: diante da possibilidade de sentir vergonha por falar algo errado, confuso, que não será adequado ou aceito, a pessoa prefere silenciar, sendo comumente mais quieta do que falante.

- Dificuldade para tomar decisões: para não correr o risco de se sentir envergonhada, a pessoa demora mais para decidir, inclusive coisas simples, como a escolha de uma roupa.  

- Exibicionismo e extroversão demasiada: gargalhar exageradamente da situação, levar demasiadamente na brincadeira um momento de vergonha. Para não entrar em contato com a vergonha constante de si, a pessoa está sempre agitada, sorrindo, parecendo alegre, até eufórica.

- Autoelogio constante – “se gabar”: no fundo, a pessoa sente vergonha de si, mas acaba sempre se elogiando para se defender de si e dos outros.

            Para lidar com a vergonha não saudável, e com as suas manifestações, é importante a ajuda profissional, além do apoio de pessoas de confiança. A psicoterapia é um importante meio em que se pode encontrar um ambiente seguro para lidar com as próprias vergonhas e recuperar a força e apoio em si mesmo.
            * Texto parcialmente publicado no Jornal Cidade Leste, no mês de junho.

sábado, 19 de maio de 2012

Que vergonha!

A vergonha é um sentimento natural, experimentado por todos nós ao longo da vida, involuntariamente – “surge” independentemente da nossa vontade e controle. Tem intensidades diferentes, que variam de um incômodo que dificulta a ação até uma imobilização total.
 Consiste num sentimento de desonra, humilhação ou rebaixamento diante de alguém. É ainda sentimento de insegurança provocado pelo medo do ridículo.
Sentimos vergonha quando somos apanhados desprevenidos numa situação embaraçosa, nos percebemos expostos, num momento em que não estamos preparados para isso. Sentimos vergonha por uma inabilidade ou limitação física, por dizer algo que não foi aceito, em situações que sentimos que somos incapazes de enfrentar na presença dos outros. Vergonha por ser magro ou gordo demais, por um tombo diante dos outros, por uma parte do corpo que não gostamos (espinhas etc.).
Nessas ocasiões, termos reações físicas involuntárias, como o enrubescimento, o “frio na barriga”, um tremor, acompanhados pelo impulso de cobrir o rosto, se esconder. Pode haver outras reações corporais, como: aceleração do coração, voz trêmula, corpo rígido, tom de voz baixo...
Como todo sentimento, podemos usar a vergonha ao nosso favor. A vergonha saudável nos ajuda a avaliar se um comportamento, ou uma intenção para a ação está em desacordo consigo próprio, com o outro ou com a situação presente, servindo como uma balizadora de comportamento.
Assim, ela nos sinaliza nossos limites. Permite-nos não acreditar que sabemos e temos tudo, impulsionando no sentido de buscar novas informações e aprendizados. Realmente não sabemos sempre o que é melhor e podemos nos enganar. Podemos dizer bobagem e sentir vergonha, o que nos faz deparar com nossas limitações e com a necessidade de aprender mais para não dizer bobagem!
Mesmo sendo um sentimento desagradável, desconfortável, a melhor saída sempre é acolhê-lo. Negar que estou com vergonha não me ajuda a fazer passá-la. Ao acolhê-la, posso refletir no que aconteceu, no que me fez ficar com vergonha e o que preciso fazer para lidar com a situação. Assim, a vergonha pode ser um motivo de ampliar o autoconhecimento, de fortalecer o apoio em si e de crescimento pessoal.
* Texto publicado no Jornal Cidade Leste, edição de maio de 2012.

domingo, 26 de junho de 2011

Eu e meus sentimentos!

      Cotidianamente vivemos situações em que experimentamos diversos sentimentos.  Por vezes sentimos tristeza, frustração, ou alegria, raiva, tranqüilidade. Há ocasiões que nos despertam medo, solidão, insegurança, angústia, irritação, mágoa, ou então compaixão, ternura, segurança, proteção... Em geral não aprendemos a lidar com nossos sentimentos, não temos uma educação emocional nas famílias e escolas. Como conseqüência, com facilidade nos atrapalhamos, ficamos confusos, e pouco sabemos nomear o que sentimos, identificar a que está relacionado o sentimento, a quem, e muito menos, o que fazer com tudo isso. 
      Corremos tanto no dia-a-dia que temos o risco de fazer as coisas sem estar inteiro em cada uma delas, conviver com as pessoas, sem estar realmente com elas, estar comigo sem estar comigo! Um caminho para uma vida afetiva saudável é a busca de maior aproximação de si. Em outras palavras, é prestar atenção no que acontece consigo, no que se está sentindo. Na distância, não há conhecimento. O que você está sentindo agora ao ler este texto? Tente dar um nome para o que sente.
       Na busca de se perceber, há aspectos da afetividade que são importantes, e que muitas vezes não temos presente, como: os sentimentos não são errados ou certos (não é errado sentir raiva, por exemplo); os sentimentos são mutáveis; nem sempre os sentimentos determinam as ações, mas estas são resultados de escolhas; é importante expressar os sentimentos aos outros (se o outro fez algo que me magoou, posso comunicar que não gostei do que ele fez). Assim, meus sentimentos são espontâneos, mas podem mudar e, ainda, eu, na minha liberdade, posso escolher o que fazer com o que sinto. Não é porque estou com raiva que vou bater no outro. Posso lidar com minha raiva de forma que seja construtiva para mim e para o(s) outro(s). Saúde emocional também é contato com os próprios sentimentos, assumir a responsabilidade pelo que sinto e expressar o que sinto do modo mais construtivo possível.
      Silvana Elisa Kloeckner Guimarães
      Texto publicado no jornal Cidade Leste, em junho de 2011.